Déficit habitacional exige escala, método e decisão técnica
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O déficit habitacional brasileiro foi estimado em aproximadamente 5,9 milhões de moradias em 2023, segundo levantamento da Fundação João Pinheiro. O número representa avanço em relação aos anos anteriores, impulsionado pela retomada do programa Minha Casa, Minha Vida.
Entretanto, o mesmo levantamento aponta crescimento da inadequação habitacional, que já alcança cerca de 27,6 milhões de domicílios urbanos. Isso significa que o desafio da habitação no Brasil não se limita à ausência de unidades, mas envolve desempenho construtivo, infraestrutura adequada e qualidade da moradia entregue.
A agenda habitacional brasileira deixou de ser exclusivamente quantitativa. Ela exige modelo construtivo capaz de responder com produtividade, previsibilidade e controle técnico.
Industrializar para reduzir variabilidade
A construção civil brasileira ainda opera, majoritariamente, sob lógica de elevada variabilidade em obra. Prazos alongados, desperdício de materiais, retrabalho e dependência intensa de execução artesanal impactam diretamente o custo final da unidade habitacional e a capacidade de entrega em larga escala.
Quando se trata de habitação de interesse social, essa variabilidade compromete não apenas orçamento, mas também política pública.
A industrialização surge, nesse contexto, como estratégia produtiva. Não se trata de substituir materiais, mas de reorganizar o processo construtivo para reduzir incertezas e ampliar controle.
No Brasil, o sistema Wood Frame vem ganhando espaço nesse debate. Desde 2023, o sistema é regulamentado pela ABNT NBR 16936:2023 para edificações de até dois pavimentos. A norma estabelece diretrizes técnicas claras para projeto, dimensionamento estrutural, desempenho térmico e acústico, estanqueidade e segurança contra incêndio em sistemas estruturados em peças leves de madeira com fechamentos em chapas.
Para tipologias superiores, é possível comprovar desempenho por meio de Documento de Avaliação Técnica (DATec), instrumento que atesta conformidade com a ABNT NBR 15575 quando não há norma específica aplicável.
A consolidação normativa altera o enquadramento do sistema no mercado brasileiro. O Wood Frame passa a integrar formalmente o conjunto de soluções regulamentadas, reduzindo incerteza regulatória e ampliando a possibilidade de planejamento produtivo estruturado.
Para a ABWF, discutir déficit habitacional sem discutir modelo produtivo significa tratar apenas parte do problema.
Um problema internacional
A crise habitacional não é exclusiva do Brasil. Segundo informações publicadas pelo portal Wood Central os Estados Unidos enfrentam déficit estimado em 1,2 milhão de novas moradias.
A Associação Nacional de Construtores de Casas (NAHB) aponta que o maior mercado imobiliário do mundo enfrenta escassez estrutural de oferta, influenciada por fatores como falta de mão de obra, zoneamento restritivo e limitação de terrenos disponíveis.
Embora cerca de 93% das moradias norte-americanas utilizem madeira em sua estrutura, apenas aproximadamente 3% são construídas por métodos pré-fabricados. Especialistas indicam que a ampliação desse percentual poderia contribuir significativamente para reduzir a lacuna de oferta.
O debate internacional reforça uma constatação: o desafio habitacional está diretamente relacionado à produtividade do setor da construção.
Aplicação concreta: Parque Palafitas, Santos
No Brasil, experiências recentes demonstram a viabilidade do Wood Frame em programas habitacionais e projetos de requalificação urbana.
O projeto do Parque Palafitas, em Santos (SP) tem como objetivo substituir moradias precárias em áreas de mangue por unidades habitacionais planejadas, promovendo regularização fundiária e recuperação ambiental. São seis conjuntos habitacionais, totalizando 60 unidades entregues em janeiro de 2026.
Intervenções dessa natureza exigem controle construtivo rigoroso, previsibilidade de prazo e organização logística compatível com áreas densamente ocupadas. A industrialização contribui para reduzir interferências no entorno e ampliar a capacidade de entrega em cenários complexos.

Casos como esse demonstram que o sistema Wood Frame é aplicável dentro da realidade brasileira quando há planejamento técnico e decisão institucional.
O Parque Palafitas não é caso isolado. O Brasil já acumula experiências relevantes com sistemas construtivos inovadores aplicados à habitação de interesse social em diferentes regiões do país, tanto em programas estaduais quanto em iniciativas municipais e parcerias com a iniciativa privada.
Esses projetos demonstram que a industrialização não é hipótese acadêmica, mas prática executada, com desempenho acompanhado e resultados mensuráveis. A ampliação dessa lógica depende menos de validação técnica — já consolidada — e mais de decisão institucional.
Como avançar para reduzir o Déficit habitacional no Brasil
Para a ABWF, o debate atual não se concentra mais na viabilidade técnica do sistema. A publicação da ABNT NBR 16936 consolidou o Wood Frame como solução normatizada no país e as experiências já realizadas demonstram sua aplicabilidade.
A discussão que se impõe agora é estratégica. O enfrentamento do déficit habitacional exige alinhamento entre política pública e modelo produtivo. Manter uma lógica construtiva marcada por alta variabilidade significa aceitar limites estruturais de produtividade.
A incorporação de sistemas industrializados não elimina os desafios do setor, mas contribui para reduzir incertezas, ampliar previsibilidade e qualificar o processo construtivo em larga escala.
O Wood Frame não é a única resposta possível para a habitação brasileira. Contudo, é uma alternativa regulamentada, tecnicamente estruturada e compatível com as demandas contemporâneas de desempenho, racionalização e controle produtivo.
A decisão sobre sua ampliação não é apenas técnica. É uma escolha sobre qual modelo construtivo o país pretende consolidar nos próximos anos.
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O avanço do Wood Frame no Brasil depende de articulação institucional, produção de conhecimento técnico e fortalecimento do debate regulatório.
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