Woodframe em múltiplos pavimentos: quais condições precisam avançar no Brasil

O interesse pelo desenvolvimento de edifícios residenciais e comerciais de múltiplos andares em woodframe tem crescido substancialmente no Brasil, impulsionado pela busca por construções sustentáveis, industrializadas, rápidas e de alta eficiência energética. A viabilidade técnica e financeira desses edifícios depende da perfeita articulação entre altura, uso pretendido, concepção estrutural, proteção contra incêndio, soluções acústicas, cadeia logística, processos de licenciamento e maturidade do ecossistema industrial.
Edifícios de múltiplos pavimentos em woodframe são comuns em vários países e são perfeitamente viáveis do ponto de vista estrutural. O que não se pode fazer é tratá-los como uma casa grande: eles exigem um projeto estrutural minucioso e especializado, com atenção redobrada a cargas, vento, ligações e estabilidade. E o bom é que o desempenho nos diversos requisitos pode ser dimensionado. Na segurança contra incêndio, por exemplo, o atendimento ao TRRF (Tempo Requerido de Resistência ao Fogo) pode ser alcançado com a composição de mais camadas de drywall, entre outras medidas de proteção.
É importante deixar claro, porém, que no momento a norma NBR 16.936 não prevê edifícios multipavimentos e multifamiliares — o que não torna a solução inviável, mas exige justificativa técnica própria e aprovações específicas para cada projeto.
Experiências internacionais
Países como Estados Unidos, Canadá, Suécia, Alemanha e Japão acumulam décadas de experiência na construção de edifícios residenciais e de uso misto com quatro cinco ou até seis pavimentos utilizando sistemas leves de madeira. Esses exemplos mundiais comprovam o excelente comportamento térmico, sísmico e estrutural do método.
No entanto, importar essas práticas para o Brasil exige a devida tropicalização e adequação às normas técnicas nacionais de desempenho, aos métodos de cálculo estrutural vigentes, aos critérios de segurança dos Corpos de Bombeiros locais e à disponibilidade de insumos certificados no mercado brasileiro.
O que a norma brasileira permite hoje
A publicação da ABNT NBR 16936:2023 representou um marco histórico fundamental para a segurança jurídica e técnica da construção industrializada no Brasil. Essa norma de sistema, no entanto, circunscreve seu escopo a construções térreas ou assobradadas de até dois pavimentos (térreo mais um pavimento superior), sejam elas casas isoladas ou geminadas lado a lado.
Isso significa que, no atual estágio normativo, a NBR 16936 não engloba edifícios multipavimentos nem tipologias multifamiliares com unidades autônomas sobrepostas (apartamentos empilhados). Para projetar edifícios de três ou mais andares em woodframe, os engenheiros utilizam a NBR 7190-1 e as normas correlatas de segurança e ações estruturais, necessitando de uma fundamentação técnica aprofundada, ensaios de desempenho específicos e processos de aprovação individualizados junto aos órgãos competentes.
Engenharia estrutural e estabilidade global
À medida que a edificação ganha altura, as forças horizontais geradas pelo vento tornam-se fatores determinantes no projeto estrutural. As paredes dos pavimentos inferiores precisam absorver cargas verticais acumuladas muito maiores e, ao mesmo tempo, atuar como painéis rígidos de contraventamento capazes de resistir ao tombamento e à torção do edifício.
É nesse cenário que se destaca a necessidade de um projeto estrutural minucioso e especializado: cada ancoragem metálica (hold-downs), padrão de parafusamento e interface entre pisos e painéis deve ser rigorosamente calculada.
Segurança contra incêndio
A segurança ao fogo em edifícios de múltiplos pavimentos baseia-se em princípios de engenharia de proteção passiva e ativa: garantir que a estrutura mantenha sua integridade durante o tempo necessário para o abandono seguro do edifício e para o combate pelas equipes de socorro.
O atendimento ao Tempo Requerido de Resistência ao Fogo (TRRF) no woodframe depende do dimensionamento correto do sistema de proteção: adicionando-se camadas adequadas de chapas de gesso acartonado do tipo corta-fogo (chapas rosa / RF) e utilizando barreiras corta-fogo (firestopping) no interior das cavidades das paredes e shafts, atinge-se a resistência exigida pelas normas dos Corpos de Bombeiros. O correto fechamento das passagens de tubulações hidráulicas e conduítes elétricos impede a migração vertical de fumaça e chamas entre os andares.
Acústica, vibrações e conforto
Em edificações multifamiliares com unidades sobrepostas, a convivência harmoniosa entre vizinhos depende diretamente da atenuação do ruído de passos e da rigidez dinâmica dos entrepisos. Além de barrar a transmissão sonora aérea e de impacto, a engenharia de estruturas leves precisa calcular a frequência natural de vibração dos pisos para evitar sensações incômodas de balanço ao caminhar.
Assim como nas residências térreas, o desempenho em edifícios de múltiplos pavimentos pode ser planejado e dimensionado com precisão mediante a especificação de vigas com altura adequada, uso de mantas resilientes, aplicação de contrapisos flutuantes e forros desacoplados com absorventes minerais.
Fachadas, umidade e durabilidade
Prédios mais altos enfrentam maior pressão de vento e ação intensa da chuva dirigida sobre as fachadas externas. Garantir a integridade da envoltória contra infiltrações é a regra de ouro para preservar a estrutura de madeira seca e íntegra ao longo de todo o seu ciclo de vida.
O projeto deve incorporar barreiras de água e ar (membranas hidrófugas respiráveis), detalhes precisos de rufos, drenagem de condensação e fachadas ventiladas. A durabilidade da madeira é garantida pelo cumprimento rigoroso da norma NBR 16143:2024 (Preservação de Madeiras — Sistema de categorias de uso), que determina o tratamento preservativo por autoclave compatível com a classe de exposição do material. Adotando esses cuidados técnicos e os sistemas de impermeabilização recomendados, uma edificação em woodframe atinge vida útil superior a 50 anos com manutenção padrão.
Produção, transporte e montagem
A construção de edifícios industrializados multipavimentos opera sob uma lógica fabril. O sucesso da obra exige planejamento antecipado sobre o tamanho máximo dos painéis para circulação rodoviária, logística de içamento por guindastes, proteção dos componentes contra intempéries durante a montagem e sequência precisa de encaixes.
A digitalização completa por meio de modelos BIM (Building Information Modeling) integra a fábrica e o canteiro de obras, reduzindo o desperdício a índices próximos de zero e acelerando drasticamente o tempo total de entrega da edificação.
Aprovação, seguros e financiamento
A consolidação do woodframe em altura no mercado imobiliário requer transparência e previsibilidade institucional. As incorporadoras e construtoras devem alinhar, desde a fase de viabilidade do negócio, a documentação técnica necessária junto às prefeituras municipais, Corpos de Bombeiros locais, agentes financeiros e companhias de seguro habitacional.
A apresentação de memoriais descritivos fundamentados nas normas da ABNT, ensaios de desempenho em laboratórios acreditados e memoriais de cálculo de engenharia especializada fornece o embasamento exigido para mitigar riscos de aprovação e garantir taxas competitivas de financiamento e seguro.
Capacidade da cadeia produtiva
A expansão contínua do sistema necessita de uma indústria nacional madura e abastecida com insumos certificados. Isso abrange florestas plantadas tratadas, painéis de madeira estrutural de alta qualidade, fitas e membranas de estanqueidade, fixadores metálicos específicos, usinas de painéis automatizadas e mão de obra de montagem devidamente capacitada.
O fortalecimento da cadeia produtiva ocorre por meio do investimento em pesquisa aplicada, cursos de qualificação técnica nas universidades e escolas de formação e troca permanente de dados e experiências entre os elos industriais.
Uma agenda coletiva para o Brasil
O avanço do woodframe para edifícios de múltiplos pavimentos representa uma evolução natural e promissora para a construção civil brasileira, unindo produtividade, descarbonização da economia e modernização dos métodos construtivos. Construir esse caminho exige cooperação mútua entre engenheiros, arquitetos, pesquisadores, fabricantes e entidades normativas.
A Associação Brasileira do Woodframe (ABWF) lidera essa jornada no país, coordenando grupos de trabalho, participando de comitês técnicos de normalização e incentivando o intercâmbio de conhecimento para acelerar a engenharia em madeira com sustentabilidade e responsabilidade técnica.
Normas que você precisa conhecer
O projeto seguro e a viabilização de edificações estruturadas em madeira no país apoiam-se em um conjunto robusto de normas técnicas:
● NBR 16936:2023 — Edificações em light wood frame: norma que padroniza o sistema no país, atualmente limitada a edificações de térreo mais um pavimento, sem sobreposição de unidades autônomas.
● NBR 7190-1:2022 — Projeto de estruturas de madeira: estabelece os critérios gerais de cálculo para dimensionamento, verificação de deformações, estabilidade e conexões em madeira.
● NBR 8681:2025 — Ações e segurança nas estruturas: fixa os conceitos fundamentais para aplicação de coeficientes de ponderação, segurança e combinações de carregamentos.
● NBR 6123:2023 — Forças devidas ao vento em edificações: procedimento para o cálculo do impacto das rajadas de vento sobre a estabilidade global de prédios.
● NBR 15575 (partes 1 a 6) — Desempenho de edificações habitacionais: estabelece requisitos de segurança estrutural, estanqueidade, durabilidade, conforto térmico e acústico.
● NBR 14432:2001 — Exigências de resistência ao fogo dos elementos construtivos: define os tempos mínimos de resistência ao fogo exigidos conforme a altura e a ocupação do imóvel.
● NBR 16944-1:2021 — Selagens resistentes ao fogo em elementos de compartimentação: orientações para selagem de aberturas de shafts e passagens técnicas entre andares.
● NBR 9077:2025 — Saídas de emergência em edifícios: critérios de projeto para escadas, rotas de fuga e evacuação segura em caso de sinistro.
● NBR 16143:2024 — Preservação de Madeiras — Sistema de categorias de uso: fixa os tratamentos químicos e processos industriais necessários para assegurar a imunização e a durabilidade da madeira.
Perguntas frequentes (FAQ)
Qual é o limite coberto pela norma brasileira de light wood frame? A ABNT NBR 16936:2023 cobre edificações residenciais e comerciais de até dois pavimentos (térreo mais um pavimento superior), sejam isoladas ou geminadas lado a lado, excluindo unidades autônomas sobrepostas. No momento, edifícios multipavimentos e multifamiliares não estão contemplados nessa norma de sistema; projetos fora desse escopo exigem desenvolvimento estrutural específico com base na NBR 7190-1 e aprovações individualizadas.
Edifícios de múltiplos pavimentos em woodframe são viáveis? Sim. São amplamente construídos no exterior e plenamente viáveis do ponto de vista da engenharia estrutural. Contudo, exigem um dimensionamento estrutural rigoroso e detalhado para suportar cargas acumuladas, vibrações de uso e forças laterais de vento.
Como o woodframe atende ao TRRF (Tempo Requerido de Resistência ao Fogo)? O desempenho é dimensionado de acordo com a exigência normativa. A proteção contra o fogo é assegurada adicionando-se camadas de gesso acartonado apropriadas (como chapas resistentes ao fogo - RF), utilizando isolamentos incombustíveis no interior das paredes e aplicando selagens corta-fogo nas passagens de instalações.
Como entram os sistemas híbridos? Os sistemas híbridos combinam painéis leves de woodframe com elementos estruturais em concreto armado, aço ou madeira engenheirada (como MLC ou CLT). Eles distribuem as cargas de forma inteligente, mantendo o woodframe nas paredes de vedação e contraventamento e utilizando outros materiais para núcleos rígidos e grandes vãos.
Como garantir a durabilidade da estrutura? Seguindo as diretrizes da norma NBR 16143:2024 (Preservação de Madeiras) para o tratamento químico preventivo da madeira e executando rigorosamente todas as barreiras contra umidade, fitas de estanqueidade e detalhes de drenagem na fachada. Com esses cuidados, a estrutura tem vida útil superior a 50 anos.
Como utilizar referências internacionais? Projetos e publicações técnicas estrangeiras servem como excelente fonte de aprendizado e repertório construtivo, mas suas soluções precisam ser sempre recalculadas e adaptadas às normas brasileiras de projeto estrutural, ação do vento e exigências do Corpo de Bombeiros.




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