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Digitalização e projeto estruturado impulsionam a evolução do Wood Frame no Brasil

  • há 11 minutos
  • 4 min de leitura


A forma como a informação é organizada no projeto começa a definir, cada vez mais, o desempenho da construção industrializada. Quando o projeto não nasce digital, a continuidade da informação se rompe ao longo das etapas do processo construtivo. Isso faz com que decisões que deveriam estar definidas ainda na fase de projeto acabem sendo tomadas posteriormente, na fábrica ou no canteiro de obras.


Segundo Xurxo Ojea, diretor da Cadwork, essa quebra de informação compromete a eficiência da industrialização.


“Quando o projeto não nasce digital, ocorre uma quebra na continuidade da informação. Em muitos casos o Wood Frame ainda é projetado com ferramentas genéricas ou até em 2D, o que obriga as equipes a interpretar o projeto diversas vezes ao longo do processo”, afirma.

De acordo com Ojea, essa situação gera retrabalho e reduz a previsibilidade da produção. “Decisões que deveriam estar resolvidas no projeto acabam sendo tomadas na fábrica ou na obra. Isso dificulta o planejamento de produção, a compra de materiais e a organização da montagem.”


Projeto deixa de ser representação e passa a organizar a produção

Uma das principais mudanças é a transformação do papel do projeto dentro da construção industrializada. No Wood Frame, o modelo digital deixa de ser apenas uma representação da edificação e passa a estruturar diretamente o processo produtivo.

Ferramentas de modelagem específicas para construção em madeira trabalham com peças estruturais reais, materiais definidos e regras construtivas compatíveis com a fabricação. Essa abordagem permite antecipar decisões que tradicionalmente seriam tomadas apenas durante a execução da obra.


Entre essas decisões estão a modulação da estrutura, a definição de reforços e aberturas, o posicionamento de instalações e a divisão dos painéis considerando transporte e montagem.

Esse tipo de abordagem está associado ao conceito de DFMA — Design for Manufacturing and Assembly — que orienta o projeto a considerar simultaneamente fabricação, logística e montagem.


Para Ojea, essa lógica muda completamente a forma de projetar. “Não se trata apenas de modelar o edifício em três dimensões. O projeto passa a definir peças reais, regras construtivas e processos de montagem. Quando o modelo digital está bem estruturado, ele funciona como um verdadeiro manual de fabricação da edificação.”

 

Integração entre projeto, fábrica e obra

A digitalização também permite integrar diretamente as etapas de projeto, fabricação e montagem. Modelos digitais estruturados possibilitam a geração automática de listas de corte, a exportação de arquivos para máquinas CNC e o planejamento das sequências de fabricação e montagem.


Essa integração reduz etapas intermediárias de interpretação e diminui erros de produção.

Esse processo também altera o papel do canteiro de obras. Parte da complexidade construtiva é transferida para o projeto e para o ambiente controlado da fábrica, enquanto o canteiro passa a concentrar atividades de montagem.

 

Inteligência artificial entra como ferramenta de apoio

Além da digitalização do projeto, o estudo discute o uso crescente de ferramentas baseadas em dados e inteligência artificial no apoio à engenharia.

Entre as aplicações possíveis estão a otimização do uso de materiais, análise de variantes de projeto, previsão de custos e prazos e identificação de padrões de erro ao longo do processo produtivo.


Para a Associação Brasileira de Wood Frame, no entanto, essas tecnologias devem ser entendidas como instrumentos de apoio, e não como substitutas da responsabilidade técnica.

De acordo com o presidente da entidade, Euclésio Finatti, acompanhar essa evolução tecnológica tornou-se indispensável para o setor.


“A construção civil está passando por uma transformação profunda impulsionada pelas tecnologias digitais e pela inteligência artificial. Não podemos ficar para trás. Precisamos acompanhar essa evolução e aplicar o que for possível no Wood Frame para que o sistema se desenvolva de forma dinâmica.”


Finatti ressalta que a inteligência artificial pode contribuir principalmente para organizar informações e apoiar processos técnicos.


“A IA não substitui o responsável técnico. Ela funciona como apoio. Pode facilitar a busca por materiais, ajudar na organização das informações e contribuir para a qualificação técnica dos processos.”

 

Desafios culturais ainda limitam expansão

Apesar do avanço das tecnologias digitais, o setor ainda enfrenta desafios estruturais para ampliar o uso do Wood Frame no Brasil.


Um dos principais obstáculos apontados pela ABWF é cultural. A construção em alvenaria ainda domina a lógica tradicional do setor e a percepção de robustez estrutural. “Existe uma tradição muito forte ligada à construção em alvenaria. Muitas pessoas ainda associam robustez apenas a esse sistema. Superar essa visão exige mudança cultural e maior disseminação de conhecimento técnico”, afirma Finatti.


Outro ponto destacado é a formação profissional. Segundo a entidade, o Wood Frame ainda não está plenamente incorporado aos currículos tradicionais de engenharia e arquitetura no país.


Essa lacuna faz com que parte da qualificação profissional ocorra fora do ambiente acadêmico, por meio de treinamentos específicos ou experiência prática.

 

Mercado abre oportunidades

Ao mesmo tempo em que enfrenta desafios culturais e estruturais, o sistema construtivo também encontra oportunidades relevantes no mercado brasileiro.

De acordo com a ABWF, a demanda por soluções construtivas mais eficientes, rápidas e sustentáveis tende a favorecer sistemas industrializados.


Finatti destaca que o déficit habitacional brasileiro reforça essa necessidade. “Hoje temos um déficit habitacional elevado e concentrado principalmente nas faixas de renda mais baixas. Para enfrentar esse cenário precisamos de processos construtivos mais industrializados. A construção tradicional não consegue entregar o volume de moradias necessário.”

 

Formação de novos profissionais deve impulsionar mudanças

Para a entidade, a evolução da construção industrializada está diretamente ligada à formação de novas gerações de profissionais.


Enquanto empresas que atuam com métodos tradicionais podem enfrentar dificuldades para reorganizar seus processos produtivos, profissionais mais jovens tendem a ingressar no setor já familiarizados com ferramentas digitais e novas metodologias de trabalho.


“Os novos profissionais já nascem inseridos em um ambiente digital. Eles entendem que é necessário modernizar os processos para alcançar melhores resultados”, afirma Finatti.

Nesse contexto, a ABWF aponta a qualificação profissional como uma de suas principais frentes de atuação para fortalecer o desenvolvimento do sistema no país.

 

Informação passa a ser ativo central da construção

A transformação da construção civil está diretamente ligada à forma como a informação é tratada ao longo do processo construtivo. Sistemas industrializados dependem de projetos detalhados, modelos digitais consistentes e integração entre projeto, produção e montagem.

À medida que esses elementos se consolidam, tecnologias como automação, parametrização e inteligência artificial tendem a ampliar seu impacto no setor.


O avanço da construção industrializada não depende apenas da adoção de novas ferramentas tecnológicas, mas da capacidade de estruturar processos técnicos baseados em informação qualificada.


Nesse cenário, o Wood Frame surge como um sistema naturalmente alinhado a essa lógica de integração entre projeto, fabricação e montagem.

 


 
 
 

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