Construção offsite ganha espaço no debate sobre habitação de interesse social no Brasil
- há 4 horas
- 3 min de leitura
Painel realizado no ENIC 2026 discutiu a evolução dos sistemas industrializados para HIS e os desafios para ampliar sua adoção no país

A alta demanda por habitações de interesse social, associada aos programas de financiamento habitacional, tem ampliado o interesse por modelos construtivos industrializados no Brasil. O tema foi debatido durante o painel “Evolução da construção offsite para HIS no Brasil”, realizado no Encontro Internacional da Indústria da Construção (ENIC 2026), evento organizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
A discussão reuniu representantes de empresas que atuam com soluções offsite e colocou em pauta os avanços, desafios técnicos e oportunidades para a aplicação de sistemas industrializados na produção habitacional em larga escala.
Segundo os participantes, a construção offsite tem como principais vantagens a maior velocidade de execução, a possibilidade de melhor controle produtivo e a redução de custos em determinadas etapas. Ainda assim, o modelo enfrenta desafios relacionados à integração entre produção industrial e etapas executadas no canteiro, especialmente nos acabamentos.
Para José Márcio Fernandes, CEO da Kata Machines & Systems, a primeira metade da década de 2010 foi marcada por grande otimismo em relação ao modelo offsite, impulsionado pela demanda habitacional e pelos programas de financiamento de casas populares. No entanto, ele destacou que o trabalho on site exigido em algumas fases, especialmente no acabamento, ainda pode gerar atrasos e aumento de custos quando não há integração adequada entre projeto, fabricação e montagem.
O avanço do modelo, segundo os debatedores, passou por um processo de revisão técnica e aprimoramento produtivo, permitindo maior maturidade das soluções industrializadas e ampliando sua aplicação em diferentes tipologias habitacionais.
Durante o painel, Daniela Ferrari, diretora de Relações Institucionais da ALEA, destacou a evolução das casas fabricadas e sua contribuição para uma construção mais sustentável. A empresa, uma das referências do setor no país, informou ter capacidade de produzir até quatro casas por dia e atuar no atendimento ao programa Minha Casa Minha Vida em 62 municípios do estado de São Paulo.
Para Ferrari, há um espaço relevante para crescimento da construção offsite no Brasil. Entre os fatores que impulsionam essa expansão estão o interesse do consumidor pela casa como produto habitacional, a menor concorrência em relação a apartamentos convencionais e loteamentos, além de questões estruturais do setor, como a reforma tributária e a carência de mão de obra.
A escassez de profissionais qualificados também foi apontada como um dos fatores que favorecem a industrialização da construção. Ao transferir parte relevante da produção para ambientes controlados, os sistemas offsite permitem maior padronização, produtividade e previsibilidade, reduzindo a dependência de processos artesanais no canteiro.
Outro exemplo apresentado no painel foi o da CMC Módulos. Segundo Edson Tateishi, diretor de Operações da empresa, a operação evoluiu gradualmente da produção de banheiros industrializados para a fabricação de casas completas, com capacidade de produzir até duas unidades por dia. Em um dos exemplos citados, a empresa entregou uma casa em 15 dias, sendo dois dias destinados à construção e o restante às etapas de piso e pintura.
Os participantes também destacaram a aplicação da construção offsite em situações emergenciais, como a produção de moradias para áreas afetadas por catástrofes naturais. As enchentes no Rio Grande do Sul foram citadas como um exemplo da importância de sistemas construtivos capazes de responder com agilidade a demandas habitacionais urgentes.
Apesar dos avanços, os fabricantes apontaram que ainda há resistência à adoção do modelo offsite em projetos de habitação de interesse social. Segundo os debatedores, parte dos agentes envolvidos na produção habitacional ainda tende a priorizar métodos convencionais, mesmo quando alternativas industrializadas apresentam maior velocidade de entrega e potencial de redução de custos.
O debate reforça a importância de ampliar a discussão sobre construção industrializada no Brasil, especialmente em um momento em que o país busca aumentar a produtividade do setor, reduzir prazos, melhorar a qualidade das edificações e atender à demanda por moradia com maior escala e previsibilidade.
Para a ABWF, a evolução da construção offsite e dos sistemas industrializados para habitação de interesse social está diretamente conectada ao fortalecimento de uma agenda técnica, normativa e produtiva para a construção civil brasileira. Sistemas como o Wood Frame integram esse movimento ao reunir racionalização construtiva, planejamento, controle de execução, desempenho e potencial de aplicação em diferentes contextos habitacionais.
O avanço da construção industrializada depende da articulação entre empresas, entidades setoriais, poder público, instituições de pesquisa, agentes financeiros e profissionais da cadeia produtiva. Mais do que uma mudança de método construtivo, trata-se de uma transformação na forma de projetar, produzir e entregar edificações no país.
O ENIC 2026 é uma realização da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e correalização do Sesi e Senai, com apoio institucional, patrocínios e participação de diversas entidades e empresas ligadas ao setor da construção.




Comentários