Construir com madeira causa desmatamento? O que dizem os dados

A pergunta aparece em quase toda conversa sobre construção em madeira, e merece uma resposta com dados, não com slogan. Construir com madeira causa desmatamento? A resposta técnica é: depende da origem da madeira. Madeira de floresta plantada, com origem legal e rastreável, é um produto de outra cadeia, e é ela que sustenta a construção em madeira no Brasil.
1. O ponto de partida: origem e legalidade
O Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), do MapBiomas, detectou 984.794 hectares desmatados no país em 2025, queda de 20,6% em relação ao ano anterior. O mesmo levantamento identificou indícios de ilegalidade em 96% dos eventos de desmatamento.
O dado aponta para o que importa na hora de comprar madeira: a questão central não é o material, e sim a origem e a legalidade. É por isso que rastreabilidade e certificação são critérios de compra, e não diferenciais opcionais.
2. Floresta plantada é uma cadeia à parte
A madeira que abastece a construção industrializada vem, em sua grande maioria, de florestas plantadas, uma atividade distinta da exploração de matas nativas.
Segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), o Brasil tem 10,52 milhões de hectares de árvores plantadas, e o setor mantém mais de 7 milhões de hectares de áreas nativas conservadas, além de 10,7 milhões de hectares com certificação florestal (Relatório Anual 2025). A expansão do plantio ocorre, em geral, sobre áreas de pastagem degradada.
O IBGE, na Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS 2025, divulgada em setembro de 2026), confirma a dimensão e a tendência: a área de florestas plantadas chegou a 10,4 milhões de hectares (+4,8% em um ano), eucalipto e pinus respondem por 96,5% da silvicultura comercial, e a silvicultura representa 85,6% do valor da produção florestal primária. O próprio instituto registra a tendência de crescimento dos produtos madeireiros oriundos da silvicultura em detrimento da extração madeireira em matas nativas. Em 2025, a extração madeireira nativa recuou 9,6% em valor.
O pinus, espécie base da madeira estrutural no wood frame, ocupa cerca de 1,9 milhão de hectares no país, 89% deles na região Sul (Ibá, 2025). São áreas de plantio manejado, com ciclo de corte e replantio.
3. Origem legal e certificação: o que separa o bom do ruim
Existe madeira nativa de origem ilegal no mercado, e dizer o contrário seria ignorar a realidade. Por isso a pergunta que o construtor, o projetista e o comprador devem fazer não é "é madeira?", e sim "de onde vem?".
Três instrumentos respondem a isso:
Documento de Origem Florestal (DOF) e nota fiscal: rastreiam o produto desde a origem.
Certificação florestal independente: o FSC, por exemplo, certifica mais de 10 milhões de hectares no Brasil (2026), e o Cerflor/PEFC é o sistema com reconhecimento nacional.
Fornecedor qualificado: serrarias e fabricantes de painéis que comprovam procedência e processo.
No wood frame, a exigência de madeira tratada, seca e classificada para uso estrutural já filtra a cadeia: não há espaço técnico para material informal.
4. Carbono: o que a ciência afirma e o que não afirma
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), no 6º Relatório de Avaliação (AR6, Grupo de Trabalho III, capítulo 9, sobre edificações), reconhece que produtos de madeira armazenam carbono ao longo da vida útil e que estruturas de madeira tendem a ter menor carbono incorporado que alternativas de concreto e aço, desde que a madeira venha de manejo sustentável. O relatório também lembra que os resultados variam conforme o limite do estudo de ciclo de vida, e é honesto dizer isso.
Um cuidado de linguagem: armazenar carbono em uma edificação não equivale a gerar crédito de carbono. São conceitos diferentes, e o setor ganha credibilidade quando os mantém separados.
5. O que isso significa para o wood frame
O sistema wood frame é eficiente no uso da matéria-prima: painéis de pequena seção, projeto detalhado, corte otimizado e obra seca, com baixo desperdício. A demanda construtiva por madeira de floresta plantada cria mercado para a silvicultura e incentiva a manutenção de cadeias com rastreabilidade.
A ABWF defende, portanto, uma posição objetiva:
Madeira de floresta plantada, com origem comprovada, é o caminho para a construção em madeira no Brasil.
Rastreabilidade e certificação devem ser critério de compra, e não diferencial opcional.
O debate deve olhar para a origem e a legalidade da madeira, e não para o material de uma construção bem especificada.
Construir em madeira, com a madeira certa, é parte da solução para uma construção civil mais eficiente e de menor pegada de carbono.
Quer conhecer as empresas que fornecem madeira estrutural e construem em wood frame no Brasil? Acesse o Guia ABWF de empresas associadas.
Referências
MapBiomas. Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD) 2025. https://alerta.mapbiomas.org
Ibá – Indústria Brasileira de Árvores. Relatório Anual 2025. https://iba.org
IBGE. Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) 2025, divulgada em 24/09/2026. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/48118-valor-de-producao-da-silvicultura-e-da-extracao-vegetal-cresce-6-7-e-soma-r-47-9-bilhoes
FSC Brasil. Mais de 10 milhões de hectares certificados no Brasil (maio/2026). https://br.fsc.org
IPCC. Climate Change 2022: Mitigation of Climate Change (AR6, WGIII), Capítulo 9 – Buildings. https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg3/chapter/chapter-9/




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